Despedida...
Partida?
Aquele profundo olhar azul
Já não me falava mais de música
Ou matemática...
Me agradecia a visita,
Como se dissesse que era bom eu estar ali,
Que me reconhecia...
Ao mesmo tempo era desespero:
Me socorre, me tira daqui!
Me deixe ir, de vez.
Aquele profundo olhar azul
Sempre será inesquecível.
A sua presença quase ausente,
A sua fragilidade e tristeza,
Toda a sua humanidade.
O profundo olhar azul me disse adeus,
Uma lágrima escorreu
E o nosso silêncio se sabia o último diálogo.
Só entre nossos olhares,
O mais profundo olhar azul foi último.
SP, fevereiro de 2011: para o avô de meu marido, Walter, que partiu e com quem troquei este profundo e silencioso olhar azul no final de 2010 (Natal), em nosso último encontro, quando ele já estava muito, muito doente.
Pensamentos soltos + pitadas (ou palpitadas?) sobre cultura + poesias + punhado de histórias vividas ou não + contos e crônicas de uma ovelha negra bem colorida = salada bem temperada. Seja bem vindo e sirva-se à vontade!
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sábado, 12 de março de 2011
domingo, 15 de agosto de 2010
Casa Vazia
A casa vazia
As paredes sujas
O silêncio e o vento
Como únicos habitantes
Poeira e odor de mofo
O espelho de sol na parede
A cadeira de balanço que não se move mais
E um imenso vazio
Nada mais
Fechando os olhos
É possível que os ouvidos
Escutem velhas risadas e gargalhadas
De um tempo que não mais existe
Das bocas que não mais se encontram
Das vozes que não estão mais presentes
Partiram no tempo
Ausências sentidas
Resta a casa quase vazia
Suja e silenciosa
Resta a memória
Aquela que não nos abandona
Acabou a família
Restam lembranças
As paredes sujas
O silêncio e o vento
Como únicos habitantes
Poeira e odor de mofo
O espelho de sol na parede
A cadeira de balanço que não se move mais
E um imenso vazio
Nada mais
Fechando os olhos
É possível que os ouvidos
Escutem velhas risadas e gargalhadas
De um tempo que não mais existe
Das bocas que não mais se encontram
Das vozes que não estão mais presentes
Partiram no tempo
Ausências sentidas
Resta a casa quase vazia
Suja e silenciosa
Resta a memória
Aquela que não nos abandona
Acabou a família
Restam lembranças
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Meu avô - parte 2: a partida
A segunda inspiração pra escrever é a própria vida do meu avô, sua longevidade e sua morte, relativamente tranqüila. Uma transição diferente do comum para uma pessoa que, sem dúvida, teve muita “proteção” a vida inteira. Conversava ontem com meu primo-irmão Rodrigo e minha mãe sobre a força da fé. Talvez isso tenha feito com que ele fosse tão protegido: meu avô não sentia dor alguma. Teve câncer e só descobriu porque começou a ter sangramentos, que o levaram a algumas transfusões de sangue. Dor? Nem sinal. Operou, ficou bem da cirurgia, mas seu coração já não batia com força suficiente para fazer funcionar seus órgãos vitais, como rim e fígado. Foi pifando. Já internado, não sentiu esta falência. Não sofreu nem dor e nem a consciência da partida, devido à sedação pós cirúrgica. Foi rápido o suficiente para que não sofresse, não agonizasse. Foi lento o suficiente para que a família percebesse que era chegada a hora e se conformasse, torcendo para o melhor desfecho para ele. Parou. Meu avô era muito independente e se manteve lúcido até o final da vida. Não ia suportar ficar doente, dependente, na cama de hospital ou na casa de algum filho. Morava sozinho até uns 2 ou 3 anos atrás! Dá pra imaginar um senhor de 90 anos sozinho? Só aceitou ter um acompanhante em casa depois de muita, muita insistência dos filhos (devido à idade avançada dele, todos temiam que ele sofresse algo sozinho em casa, sem ter quem o socorresse). Mas só aceitou depois levar um ou dois sustinhos: de sentir falta de ar, alguma dificuldade para andar ou uma tontura pra sair da cama. Aí reconheceu a sua fragilidade e aceitou que alguém dormisse com ele em casa. Mas deixar de morar sozinho, jamais! (risos) Ah, e tinha que ser mulher: dormir com outro homem em casa, nem pensar! (+ risos)
Falei com ele pelo telefone pela última vez no dia 26/07, dia dos avós. Ele me ouviu ao telefone, agradeceu rindo a ligação, achando divertido eu ligar pelo “dia dos avós”. Agradeceu o carinho e perguntou pela minha filha. Lúcido, lúcido. Aos 93, quase 94 anos (faria em outubro). Tudo bem, eu tive que berrar um pouco ao telefone, mas o velho estava inteiraço pra quem estava com tanta estrada percorrida, um puta câncer (estômago, baço, pâncreas), entupimentos nas veias, coração grande e lento... Nem parecia. Estava já internado, era véspera da cirurgia pra retirada do câncer. Depois não tivemos mais oportunidade de nos falarmos. Mas foi uma despedida bacana entre nós.
Falei com ele pelo telefone pela última vez no dia 26/07, dia dos avós. Ele me ouviu ao telefone, agradeceu rindo a ligação, achando divertido eu ligar pelo “dia dos avós”. Agradeceu o carinho e perguntou pela minha filha. Lúcido, lúcido. Aos 93, quase 94 anos (faria em outubro). Tudo bem, eu tive que berrar um pouco ao telefone, mas o velho estava inteiraço pra quem estava com tanta estrada percorrida, um puta câncer (estômago, baço, pâncreas), entupimentos nas veias, coração grande e lento... Nem parecia. Estava já internado, era véspera da cirurgia pra retirada do câncer. Depois não tivemos mais oportunidade de nos falarmos. Mas foi uma despedida bacana entre nós.
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