Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de março de 2011

O Profundo Olhar Azul

Despedida...
Partida?
Aquele profundo olhar azul
Já não me falava mais de música
Ou matemática...
Me agradecia a visita,
Como se dissesse que era bom eu estar ali,
Que me reconhecia...
Ao mesmo tempo era desespero:
Me socorre, me tira daqui!
Me deixe ir, de vez.
Aquele profundo olhar azul
Sempre será inesquecível.
A sua presença quase ausente,
A sua fragilidade e tristeza,
Toda a sua humanidade.
O profundo olhar azul me disse adeus,
Uma lágrima escorreu
E o nosso silêncio se sabia o último diálogo.
Só entre nossos olhares,
O mais profundo olhar azul foi último.


SP, fevereiro de 2011: para o avô de meu marido, Walter, que partiu e com quem troquei este profundo e silencioso olhar azul no final de 2010 (Natal), em nosso último encontro, quando ele já estava muito, muito doente.

domingo, 15 de agosto de 2010

Casa Vazia

A casa vazia
As paredes sujas
O silêncio e o vento
Como únicos habitantes
Poeira e odor de mofo
O espelho de sol na parede
A cadeira de balanço que não se move mais
E um imenso vazio
Nada mais
Fechando os olhos
É possível que os ouvidos
Escutem velhas risadas e gargalhadas
De um tempo que não mais existe
Das bocas que não mais se encontram
Das vozes que não estão mais presentes
Partiram no tempo
Ausências sentidas
Resta a casa quase vazia
Suja e silenciosa
Resta a memória
Aquela que não nos abandona
Acabou a família
Restam lembranças

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Meu avô - parte 2: a partida

A segunda inspiração pra escrever é a própria vida do meu avô, sua longevidade e sua morte, relativamente tranqüila. Uma transição diferente do comum para uma pessoa que, sem dúvida, teve muita “proteção” a vida inteira. Conversava ontem com meu primo-irmão Rodrigo e minha mãe sobre a força da fé. Talvez isso tenha feito com que ele fosse tão protegido: meu avô não sentia dor alguma. Teve câncer e só descobriu porque começou a ter sangramentos, que o levaram a algumas transfusões de sangue. Dor? Nem sinal. Operou, ficou bem da cirurgia, mas seu coração já não batia com força suficiente para fazer funcionar seus órgãos vitais, como rim e fígado. Foi pifando. Já internado, não sentiu esta falência. Não sofreu nem dor e nem a consciência da partida, devido à sedação pós cirúrgica. Foi rápido o suficiente para que não sofresse, não agonizasse. Foi lento o suficiente para que a família percebesse que era chegada a hora e se conformasse, torcendo para o melhor desfecho para ele. Parou. Meu avô era muito independente e se manteve lúcido até o final da vida. Não ia suportar ficar doente, dependente, na cama de hospital ou na casa de algum filho. Morava sozinho até uns 2 ou 3 anos atrás! Dá pra imaginar um senhor de 90 anos sozinho? Só aceitou ter um acompanhante em casa depois de muita, muita insistência dos filhos (devido à idade avançada dele, todos temiam que ele sofresse algo sozinho em casa, sem ter quem o socorresse). Mas só aceitou depois levar um ou dois sustinhos: de sentir falta de ar, alguma dificuldade para andar ou uma tontura pra sair da cama. Aí reconheceu a sua fragilidade e aceitou que alguém dormisse com ele em casa. Mas deixar de morar sozinho, jamais! (risos) Ah, e tinha que ser mulher: dormir com outro homem em casa, nem pensar! (+ risos)

Falei com ele pelo telefone pela última vez no dia 26/07, dia dos avós. Ele me ouviu ao telefone, agradeceu rindo a ligação, achando divertido eu ligar pelo “dia dos avós”. Agradeceu o carinho e perguntou pela minha filha. Lúcido, lúcido. Aos 93, quase 94 anos (faria em outubro). Tudo bem, eu tive que berrar um pouco ao telefone, mas o velho estava inteiraço pra quem estava com tanta estrada percorrida, um puta câncer (estômago, baço, pâncreas), entupimentos nas veias, coração grande e lento... Nem parecia. Estava já internado, era véspera da cirurgia pra retirada do câncer. Depois não tivemos mais oportunidade de nos falarmos. Mas foi uma despedida bacana entre nós.