segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Rio, meu melhor amigo?

A cidade maravilhosa é como a melhor amiga. Cheia de defeitos, mas você os defende ou finge que não enxerga. A cidade maravilhosa é sua, tal qual a melhor amiga: só você a vê daquele jeito. Ela só se mostra pra você daquela forma específica.
Trocam segredos, são confidentes.
Assim como a amiga, é possível ficar anos sem vê-la. Mas sabes que está lá e que irá te receber de braços abertos, a qualquer hora, qualquer momento que queira vê-la. Quando precisar, basta ir até ela.
A cidade maravilhosa te encanta, mas também briga com você. Igualzinho a amiga.
Te expulsa, te repele, te empurra pra longe. E te chama de volta, linda, sedutora, encantadora. Irresistível.
Lindos passeios, muitas histórias vividas juntas.
Risos, choros, praias, luares: podem compartilhar tudo.
E uma permanece na história da outra.
E o melhor de tudo é saber que ela sempre vai estar ali; amada.


(RJ, 19/04/2010)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Proibição e Liberdade

Varanda de casa, uma vista estranha ao meu olhar, bem tipicamente paulista. Árida. Avenidas, carros, prédios e cinza. Céu cinza. Sem horizonte, sem montanhas, rios, praias ou lagoas. Cinza claro.
Manhã sem filha. Caixas amontoadas, bagunça, poeira. Marido no trabalho e eu só. As caixas a me esperar e um mundo de novidades, idem. Uma nova vida a me esperar. E eu ali, no nono andar, olhando pro nada adiante. Me ocorreu subitamente uma vontade de fazer algo proibido. Não sei o quê e nem porquê. Fumar um cigarro, beber um whisky às 9h da manhã? Não, não era de um vício que eu tinha vontade... Dançar feito louca na varanda? Seria uma louca anônima, provavelmente nem seria vista por ninguém. E dançar nunca foi proibido... Nua talvez? Não... Não era de contravenção o meu desejo. O que eu sentia era uma vontade enorme de fazer não sei bem o quê. Era um sentimento invadindo forte. Não necessariamente de fazer algo. Muito menos "proibido". Aí então me ocorreu que eu podia entender o que sentia e porquê pensei primeiramente em uma proibição.
Era o sentimento de liberdade que me invadia absurdamente. Mesmo que aqueles minutos não durassem muito, seriam os mais livres, desde muito tempo. Uma enorme liberdade de um futuro em aberto à minha frente. Liberdade de não ter um telefone a tocar, alguém para cuidar ou alguém que de mim cuide.
Por isso a sensação de proibido, pois o oposto é imediatamente atrativo. O que é proibido é que atrai o livre.
O que eu queria mesmo era exatamente o que eu tinha, compreendi então.
Ficar ali, olhando o nada (que não precisava mesmo ser belo; não havia em mim desejo de experimentação estética) e me sentindo extremamente livre. Respirar. Não fazer nada. Nem me mexer. Talvez nem pensar.
Em algum momento, as caixas me chamariam de volta à realidade, à rotina, de uma vida que precisa andar. Mas a incerteza dos próximos passos me fazia livre e feliz naquele momento.
Tudo era possível.
O futuro está disponível.

(SP, 10/08/2009)

Partida

Vou me embora
Sob protestos, mas vou
Por causa do maldito
Vil metal?
Razão mais besta.
Vou-me embora
O amor fica
O coração fica
O corpo vai
A maldita afirmação
A necessidade de superação
A força descomunal
para provar o quê
a quem?
Só ela me interessa
Mas a tal da pressa
Já me levpu sem pensar
Vou me embora me afirmar
Preciso disso; trabalhar
Mas o sorriso dela me acompanha
e conforta
Espero eu
estar sempre em seu coração também
Vou para logo voltar
E com ela ficar

(SP, 25/10/2010)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Que década!

Me dei conta tardiamente de que estamos virando não somente um ano, mas uma década. Foi-se a primeira década dos anos 2000. E aí percebi o quanto a minha vida mudou, deu voltas e reviravoltas em um espaço tão curto de tempo.

Do ano 2000 pra cá, eu fiquei independente, fui morar sozinha em outra cidade (a conta das mudanças de cidade é escandalosa: seis cidades em dez anos!), morei junto (casei), separei, dividi apartamento com amiga, morei sozinha de novo, morei junto com outro (casei de novo, então, né?), casei no civil com este cara, casei de novo no religioso – ainda com esse mesmo marido –, tivemos uma filha, trabalhei em grandes empresas, trabalhei por conta própria, montei a minha empresa, trabalhei em ONG, parei de trabalhar, fui dona de casa, voltei a trabalhar, estudei. Atualmente sou mãe, esposa, mulher, dona de casa, profissional liberal, empresária; tudo ao mesmo tempo. E sou filha, irmã, prima, sobrinha, neta (emprestada, mas sou), amiga... Ainda consigo dar atenção à família e aos amigos porque adoro pessoas, gente; eis o que me interessa na vida: compartilhar, estar junto, rodear e ser rodeada. Adoro gente! E acumulei verdadeiros amigos nesta última década.

Mas me impressionou notar que quase tudo o que aconteceu na minha vida adulta, as conquistas e derrotas mais importantes, as grandes mudanças, os grandes passos – os pequenos também -, as mudanças definitivas, as dores, os amores, os partos... tudo aconteceu de 2000 para cá.

Quando eu penso em tudo o que eu já fiz ou desfiz, parece que se passaram 30 anos!
E só agora, na virada desse ano é que me dei conta de que esse mundaréu de coisas aconteceu só numa década. Vivi dez anos a mil, como diria o Lobão. Não sei se isso é bom ou ruim e nem pretendo avaliar isso. Foi assim. E pronto! Mas é curioso.

Talvez tivesse sido bom ter tido tempo para digerir tantas mudanças. Mas talvez o amadurecimento seja assim mesmo: as coisas vão se atropelando e quando a gente menos espanta, está cascuda.

Gosto do que vivi, não trago arrependimentos ou rancores no coração, como diz a super em moda presidente do Brasil. Pelo contrário, trago orgulhos e sonhos, desejos, esperanças. Quem sabe até algum ideal.

E quando olho pra frente não crio muitas expectativas, descobri que não as tenho. Fui parceira do acaso todo esse tempo e para o futuro não saberia agir diferente. Não quero dizer com isso que eu deixo as coisas acontecerem na minha vida. Tive as rédeas dela em minhas mãos a maior parte do tempo na década passada, mas, analisando tudo, vejo que o acaso foi um parceiro freqüente. Nada acontece por acaso, dirão alguns. Foi Deus? Fui eu, inconscientemente, quem trilhou cada caminho e mudança na minha própria vida?

Acho que as três coisas juntas.

Tenho planos para o meu futuro mas descobri, ou percebi só agora, que não sou uma mulher de expectativas. Aprendi que a gente faz com a vida e a vida faz com a gente um monte de coisas. Então deixo fluir. Perseguindo meus objetivos, mas os deixo mudar, aceito as surpresas de Deus, do destino, do acaso, ou que tenham sido geradas pelo meu próprio subconsciente. Não importa.

Tomara apenas que ao fim da próxima década eu possa olhar pra trás e me orgulhar, curtir e rir da minha própria história, como eu faço agora. No fundo, no fundo, é só isso que eu espero. E que venham mais décadas pela frente!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um beijo agora

É inexplicável
Esse desejo
Que me assombra;
Me atormenta.
O desejo louco por teu beijo.
Ao menos me vejo,
De novo,
Tomada pela poesia,
Ansiosa pela caneta.
Vontade de escrever
O que der na veneta!
Expor mesmo o que sinto...
O grande perigo,
uma vez que não minto,
E não oculto
A fantasia a que me permito.
Ah, coisa boa,
estar aqui, à toa,
A desejar tua boca,
A deixar correr solto
O pensamento,
o sentimento.
O instante captado:
aquele momento
que volta à memória
a toda hora.
Pena que fostes embora
Sem saber que te quero
E que pelo tempo afora
Vou seguir te querendo
como agora.
Agora.